Encontro épico de gerações explora a tentação dos caminhos não trilhados e o valor das escolhas
Sinopse
Data estelar: 48632.4
Em 2293, a Enterprise-B está prestes a fazer sua primeira viagem, sob o comando do jovem capitão John Harriman. Para celebrar a ocasião, estão a bordo três veteranos aposentados da Frota Estelar, James T. Kirk, último capitão da Enterprise, e seus colegas Montgomery Scott e Pavel Chekov.
Vários equipamentos ainda estão para ser instalados, e os planos eram apenas dar uma volta pelo Sistema Solar – até detectarem o sinal de socorro de um par de naves levando refugiados el-aurianos. Mesmo desequipada, a Enterprise-B presta assistência e vê as duas naves presas a um misterioso fenômeno astronômico. Uma delas é destruída, e Harriman não sabe o que fazer. Kirk sugere arriscar e se aproximar para teletransportar os refugiados da segunda nave, a Lakul. Eles parecem estar em um fluxo temporal, e o resgate só salva 47 dos 150 passageiros – dentre eles, Guinan e Tolian Soran, um cientista el-auriano. Em compensação, a Enterprise-B acaba presa a poderosa distorção de energia.
Para salvá-la, Scott tem a ideia de reprogramar o disco defletor e emitir um feixe para desvencilhar a nave. Kirk, então, desce aos decks inferiores para reprogramar o sistema. A manobra dá certo, mas a nave é danificada e há uma brecha no casco – exatamente no local em que Kirk trabalhava. O capitão é dado como morto, para a consternação de Harriman, Scott e Chekov.
Setenta e oito anos depois, a bordo da Enterprise-D, a tripulação participa de uma celebração no holodeck para comemorar a promoção de Worf a tenente-comandante. As festividades são interrompidas por uma mensagem a Picard – ele fica sabendo que seu irmão Robert e seu sobrinho René morreram em um incêndio, na Terra. Arrasado, o capitão deixa Riker encarregado de lidar com um pedido de socorro vindo do observatório de Amargosa, que estava sob ataque.
Um grupo avançado vai a bordo e constata que houve uma incursão romulana. Eles resgatam os sobreviventes, dentre eles Tolian Soran. Na Enterprise, Data reflete sobre sua incapacidade de entender emoções humanas e decide reinstalar o chip concebido por seu criador, Noonian Soong, para que ele possa experimentá-las. Geordi relutantemente concorda. De início tudo parece dar certo, e o androide se diverte odiando uma bebida no bar panorâmico. Lá também está Soran, que procura Picard, dizendo precisar voltar ao laboratório com urgência, por causa de um experimento que precisa ser completado em 12 horas, mas o capitão diz ser impossível. Soran se surpreende ao ver que Guinan também está a bordo.
A análise de um tricorder romulano apreendido na estação revelou que eles estavam à procura de trilítio, substância que, em tese, pode interromper o processo de fusão nuclear em uma estrela. Geordi e Data voltam à estação para procurar o tal trilítio, e o androide está descontrolado, morrendo de rir com piadas que, depois de anos, ele finalmente entende. Geordi encontra um compartimento secreto na estação, onde há torpedos fotônicos armados com trilítio. Então, Soran aparece e ataca os dois. Data segue emocionalmente desequilibrado e sente um medo paralisante. Com isso, não faz nada para impedir o cientista.
Na Enterprise-D, Picard observa um álbum de fotos e relembra seus entes perdidos. Troi o procura em seu gabinete, e ele conta o que houve, embaraçado por sua dificuldade de lidar com os fatos recentes e de pensar que a linhagem dos Picards pode estar condenada ao fim, já que Jean-Luc jamais se casou ou teve filhos. Enquanto conversam, pela janela, eles notam uma explosão na estrela Amargosa – a fusão foi interrompida nela depois que uma sonda foi lançada pelo observatório, o que desencadeou uma iminente explosão de supernova.
Riker e Worf vão às pressas à estação para resgatar Data e Geordi e são atacados por Soran, que se transporta para uma nave klingon levando Geordi como refém. O grupo avançado volta à Enterprise, que sai em dobra escapando da onda de choque da explosão estelar.
Na nave klingon, Lursa e B’Etor cobram de Soran sua parte no acordo, com a entrega das armas de trilítio que dariam poder ilimitado a elas para reconquistar seu império. O cientista força elas a levá-lo ao sistema Veridian, enquanto ele interroga e tortura Geordi, promovendo modificações em seu VISOR para usá-lo como um instrumento de espionagem.
Na Enterprise-D, Crusher levanta o histórico de Soran e seu envolvimento no incidente de 78 anos atrás. Picard conversa com Guinan, tentando entender as motivações de Soran. Ela diz que o cientista não se interessa por armas ou poder, ele quer apenas voltar para o Nexus – a faixa de energia encontrada pela Enterprise-B. Quem está lá, experimenta a mais pura alegria. Guinan até hoje sofre por ter saído de lá, e Soran nunca aceitou ter sido resgatado – ele quer voltar para o Nexus.
Para descobrir por que o cientista destruiu a estrela Amargosa, Picard se reúne com Data na sala de cartografia estelar. O androide está corroído pelo remorso e deseja ser desativado – ele não consegue lidar com as próprias emoções. Picard diz que ele precisa seguir adiante. Os dois analisam todos os efeitos da destruição de Amargosa, entre eles uma mudança no campo gravitacional do setor. Analisando a posição do Nexus na galáxia e projetando seu curso, os dois notam que ela passará próximo a Amargosa. Ao analisar o efeito do sumiço da estrela, eles reparam que o Nexus mudou de curso. Agora ele passará ainda mais perto do sistema Veridian. E, se aquela estrela também for destruída, o Nexus cruzará exatamente o planeta Veridian III. Picard conclui que é para lá que Soran está indo. Como não pode se aproximar do Nexus com uma nave, ele está fazendo o fenômeno ir até ele. Porém, o colapso da estrela destruirá todos os planetas, inclusive Veridian IV, que tem uma sociedade pré-industrial de 230 milhões de indivíduos. Com isso, a Enterprise parte em dobra máxima para o sistema.
A nave klingon chega a Veridian III e Soran descerá à superfície. Ele entrega um chip com toda a informação necessária para construir uma arma de trilítio, mas o código de decriptação só será transmitido depois que ele chegar à superfície. A Enterprise chega ao sistema, e Soran decide devolver La Forge a eles. A nave klingon se descamufla, e Picard propõe a Lursa e B’Etor que troquem Geordi pelo capitão, com a condição de que antes ele seja transportado à superfície para falar com Soran.
Na desolação de Veridian III, Picard tenta convencer o cientista a não destruir a estrela. Contudo, Soran está determinado a prosseguir. O capitão ainda consegue contornar um campo de força que protege o torpedo prestes a ser lançado, mas, numa luta corpo a corpo com Soran, termina sem tempo para impedir o lançamento. O foguete atinge a estrela, que começa a entrar em colapso.
Em paralelo, os klingons recebem dados do VISOR de Geordi e identificam a frequência dos escudos da Enterprise. Uma batalha se segue, e Worf explora uma vulnerabilidade da velha ave de rapina klingon para destruí-la, mas o núcleo de dobra da Enterprise perde a contenção e está condenado a explodir. Riker ordena a evacuação da seção de engenharia e a separação do disco, que acaba atingido pela explosão e se acidenta na superfície de Veridian III.
Em seguida, o Nexus passa pela superfície e arrebata Soran e Picard, pouco antes de o planeta ser destruído. O capitão então se vê em um cenário improvável: em sua casa, plena véspera de Natal, cercado por esposa e muitos filhos, além do sobrinho René, ainda vivo. Por um momento, ele se vê tão envolto em felicidade que esquece até mesmo a crise em Veridian. Mas acaba se dando conta de que está vivendo uma ilusão. Guinan aparece para ele, dizendo-se um eco de si mesma que permaneceu no Nexus. Picard quer que ela saia com ele para impedir Soran, mas ela o lembra que já saiu, décadas atrás. Contudo, há alguém que ainda está lá e poderia ajudá-lo – James T. Kirk.
Picard encontra Kirk em uma cabana isolada, preparando ovos em um café da manhã para Antonia, um dos grandes amores de sua vida. Sem saber muito bem quem é aquele sujeito que apareceu por lá, Kirk reconhece que está de volta ao dia em que disse para Antonia que retornaria à Frota Estelar. Ele agora pode mudar a história e fazer tudo diferente. Picard explica quem ele é e o que está em jogo, com a destruição de uma civilização inteira no sistema Veridian, mas Kirk não dá muita bola, até andar a cavalo e saltar um obstáculo que sempre lhe causara medo – mas não desta vez, porque o que ele está vivendo ali não é real. Com isso, Kirk decide ajudar Picard e sair do Nexus.
Os dois voltam a Veridian III, pouco antes de o foguete de Soran ser lançado. Dessa vez, em dupla, eles conseguem confrontar o vilão, que ainda assim, ativa a camuflagem do lançador. Em luta corpo a corpo, o controle remoto vai parar numa ponte em vias de colapsar. Em um ato heroico, Kirk salta para pegar o controle, enquanto Picard vai na direção do lançador para desativá-lo. O plano dá certo, mas Kirk despenca penhasco abaixo junto com a ponte. Soran obriga Picard a se afastar do lançador, e o capitão obedece. Porém, quando o cientista chega lá, vê que a trava do foguete está ativada, e ele explode na plataforma, matando-o.
Com isso, a estrela não explode, o Nexus não passa mais pelo planeta, e Veridian IV está salvo. Kirk, no entanto, não sobrevive à queda. Preso nas ferragens da ponte, ele se despede de Picard, dizendo que era o mínimo que ele poderia fazer pelo capitão da Enterprise e que foi “divertido”. Picard o enterra sob uma pilha de rochas, pouco antes de ser resgatado por equipes da Frota Estelar que também trabalham na evacuação dos tripulantes da seção disco da Enterprise-D, acidentada na superfície do planeta. Data reencontra sua gata, Spot, e se emociona, derramando uma lágrima. Enquanto Picard e Riker recolhem alguns de seus pertences dos destroços da nave, o capitão especula sobre a natureza do tempo, que não seria um inimigo, como pensava Soran, mas um companheiro, que nos faz valorizar cada momento, porque eles jamais voltarão. Os dois lamentam a perda da Enterprise, mas estão certos de que essa não será a última nave a carregar o nome.
Comentários
A tarefa de fazer nas telas de cinema a passagem do bastão entre a Série Clássica e A Nova Geração, criando uma aventura que reunisse seus dois capitães sem que isso parecesse muito artificial ou conveniente, não era das mais fáceis, mas Jornada nas Estrelas: Generations a realiza a contento, com uma trama que traz ressonância tanto para James T. Kirk como para Jean-Luc Picard – personagens muito distantes em estilo e temperamento, mas muito próximos em suas escolhas de vida.
Por meio de um daqueles instrumentos que só a ficção científica e a fantasia podem propiciar, o misterioso Nexus, ambos têm a oportunidade de experimentar, diante do envelhecimento, “o caminho não percorrido”. Os dois optaram por se casar com sua carreira e com a solidão do comando de uma nave estelar, altruisticamente dedicados ao bem comum. Mas, e se pudessem ter uma segunda chance? E se pudessem ter, mais que isso, todas as chances?
Ao explorar essa ideia, Generations nos fala sobre o envelhecimento e o ato natural de começarmos a olhar mais para trás do que para a frente, não tão focados no que vem adiante, mas no que se passou, e na persistente lembrança de que cada escolha em nosso caminho implicou uma renúncia. Diante da fantasia da vida não vivida, eles fariam essas mesmas escolhas? A resposta é sim, dada eloquentemente conforme os dois se encontram no Nexus e decidem voltar para salvar uma civilização inteira prestes a ser destruída em Veridian III. É o desapego que esperamos dos capitães da Frota Estelar, manifesto na escolha dos dois, que faz forte contraste com a atitude de Soran, um homem obcecado por derrotar o tempo e não aceitar que aquilo que já foi não pode mais ser modificado.
Enfim, Generations é uma celebração da natureza humana, da trajetória de cada um, com seu começo, meio e fim, recheados por realizações, perdas e desafios. A trilha sonora heroica e potente composta por Dennis McCarthy faz justiça a esse encontro de dois grandes heróis da saga de Jornada nas Estrelas, valorizando cada momento que passam juntos.
A direção de David Carson, se não é brilhante, mostra-se competente e consegue capturar as atuações e a estética de duas gerações separadas, na ficção, por quase 80 anos. Nisso há de se destacar o trabalho do design de produção, liderado por Herman Zimmerman, o homem que moldou o estilo de A Nova Geração, mas também se mostrou muito útil polindo o visual dos filmes clássicos, desde Jornada nas Estrelas V: A Última Fronteira. Nesse aspecto, a transição entre o fim do século 23 e a segunda metade do século 24 é absolutamente perfeita.
Menos bem-sucedido é o esforço de dar espaço aos personagens clássicos, para além de Kirk. Temos as voltas de Montgomery Scott e Pavel Chekov, e, claro, os atores estão ótimos em seus papéis, depois de décadas de convívio com seus alter egos. O roteiro de Ronald D. Moore e Brannon Braga, contudo, tem certa dificuldade em capturar o espírito das tramas clássicas, e vemos sobretudo Scotty se afundar em tecnobaboseira para resolver a crise do resgate dos refugiados el-aurianos – traço típico de A Nova Geração, terreno mais familiar para a dupla de escritores. O uso dos personagens também é essencialmente genérico. Não fossem Scott e Chekov, poderiam ter sido quaisquer outros, embora, claro, a presença deles traga um charme especial, sobretudo diante do trágico desaparecimento de Kirk – sua primeira “morte”, para todos os efeitos práticos.
Temos, então, o salto para o século 24, onde o roteiro se encontra muito mais à vontade para explorar os personagens que Moore e Braga conhecem tão bem. Picard é lançado em uma crise existencial ao ver sua opção pessoal por não formar uma família se transformar na certeza de que sua linhagem estaria encerrada com a morte trágica de seu irmão e de seu sobrinho, comunicada via rádio subespacial.
A história brota com naturalidade do que sabemos de Jean-Luc (tendo sido introduzidos a Robert e René em “Family”, da quarta temporada de A Nova Geração), e obriga o capitão a fazer uma jornada de introspecção, enquanto momentaneamente deixa Riker no comando para lidar com a crise do ataque ao Observatório Amargosa, onde reencontraremos Soran, um dos el-aurianos resgatados pela Enterprise-B 78 anos antes.
A escolha dos el-aurianos é particularmente feliz, porque se encaixa bem com o contexto conhecido de que são refugiados, depois que o mundo deles foi destruído pelos borgs, e permite o uso de Guinan como uma ponte entre outras épocas e uma referência essencial para elucidar as intenções de Soran, a natureza do misterioso Nexus e ajudar Picard a refletir durante sua estadia nessa misteriosa realidade em que o tempo não tem significado. Whoopi Goldberg, como sempre, é maravilhosa.
No espírito dos filmes de Jornada, os roteiristas buscam momentos para explorar cada um dos personagens do elenco principal. Geordi ganha destaque ao ser sequestrado por Soran e se tornar um espião involuntário para as irmãs Duras, Lursa e B’Etor (outra boa pescada de A Nova Geração), que usam dados colhidos por seu VISOR para penetrar os escudos da Enterprise-D. Riker e Worf têm a oportunidade de participar do grupo avançado que identifica o ataque romulano ao observatório, e a Troi cabe o papel de ajudar Picard a desabafar sobre a perda de seus entes queridos. Quem acaba tendo menos com o que trabalhar é Gates McFadden, com sua Beverly Crusher acabando em uma função muito periférica na trama.
Nesse quesito, o maior ganhador, além de Picard, é Data. Os roteiristas podem fazer aqui algo que nunca puderam na série – permitir que o personagem evolua e se transforme. Com a instalação do chip de emoções, Data também passa por um arco pessoal, primeiro sobrecarregado por essas novas sensações, depois imbuído de coragem para enfrentar seus medos e remorsos recém-adquiridos. Não dá para negar que o androide também tem uma importante função de alívio cômico no filme, com a atuação sempre impecável de Brent Spiner.
Malcolm McDowell faz o que pode como o vilão Soran. Embora o personagem não seja especialmente inspirado, e seu sadismo atrapalhe qualquer esforço de empatia por parte da audiência, o nível de ameaça que ele oferece é bem calibrado: não estamos falando da destruição do universo (o que seria demais), mas também não é algo limitado como a morte de algumas pessoas ou a perda da nave. Além disso, as consequências caso sua arma de trilítio, capaz de detonar estrelas, caísse em mãos erradas eram aterradoras o suficiente para exigir o máximo sacrifício de nossos heróis. O que nos leva de volta a James T. Kirk.
Resgatado do Nexus por Picard, ele também precisa confrontar suas escolhas – a solidão na velhice – e é tentado a abraçar “o caminho não trilhado”. O drama de Kirk parece realista, ainda que apenas sutilmente trabalhado no contexto do filme, em que começamos vendo-o reencontrar Demora Sulu, filha de Hikaru, e se perguntando como seu colega capitão conseguiu tempo para formar uma família, e ele não. O tema da solidão de Kirk, e seu “casamento” com a Enterprise, foi explorado diversas vezes na Série Clássica, de forma que não soa algo tirado da cartola, mas, sim, orgânico ao personagem.
Felizmente para ele, não cabe a Picard convencê-lo de abandonar a fantasia e voltar à realidade. Da forma como o roteiro trabalha a questão, Kirk, por si mesmo, decide sair, depois de constatar que aquela realidade idílica é mero escapismo, não contém as emoções e os dramas da vida real. Com isso, ele também nos ajuda a chegar ao fim do filme, que enfatiza a importância das escolhas de fato feitas, e a diferença que elas causam no mundo, e não a prisão do que poderia ter sido e não foi. O tempo deixa de ser um inimigo a ser derrotado, como pensa Soran, e passa a ser um companheiro de viagem, como coloca Picard.
Infelizmente, para chegarmos nisso tudo, temos de passar pelo clímax da trama – afinal, é cinema de aventura, não um tratado de filosofia. E aqui é que encontramos os maiores problemas de Generations. Temos duas tramas paralelas, uma que funciona muito bem, e a outra que funciona muito mal. Começando pelas boas coisas, a sequência de batalha entre a Enterprise-D e a ave de rapina klingon é excelente, com a destruição da estrela Veridian, a explosão da seção de engenharia e as sensacionais cenas do mergulho da seção disco em Veridian III. É também por coisas como essas que as pessoas vão ao cinema ver filmes de Star Trek, e aqui não há reparos a fazer.
Ocorre que, em paralelo, temos Kirk e Picard voltando no tempo (só um pouquinho, o que para alguns parece uma falha de roteiro, mas sabe-se lá como o Nexus de fato funciona…) e enfrentando Soran. Aqui as coisas deixaram muito a desejar. Sim, vamos falar da morte de Kirk.
Por si só, não se trata de um elemento reprovável. Pelo contrário, ela se encaixa bem não só no contexto da franquia naquele momento, com a passagem de bastão entre a Série Clássica e A Nova Geração, mas sobretudo (e isso é o mais importante) na trama do filme, que está falando justamente de escolhas altruístas, fazer o bem, e o preço que às vezes se paga por elas.
Qual é o problema, então? Os roteiristas não acharam uma forma elegante o suficiente para matar esse que é um dos personagens mais importantes de Jornada nas Estrelas. Cair de uma ponte despedaçada ativando um dispositivo por controle remoto faz forte contraste com a tocante morte de Spock em Jornada nas Estrelas II: A Ira de Khan. Em resumo, não funciona. Barateia um momento que deveria ser grandioso. E isso, somado ao fato de que muitos não gostariam de ver Kirk morrer de jeito nenhum, responde pela maior parte das críticas, que no geral faz uma incrível omelete com a brutal quantidade de ovos que teve de quebrar.
Senão vejamos: Generations consegue construir uma história relevante (embora curta) para fechar a era clássica com a despedida a seu capitão, reunir dois capitães históricos separados por tempo e espaço, construir uma trama que se estende por todas essas décadas, introduzir a tripulação de A Nova Geração a uma nova audiência cinematográfica e dar boa atenção à maioria dos personagens, com evoluções que não eram permissíveis no contexto televisivo da época. Levando em conta ainda que o filme foi escrito por Moore e Braga ao mesmo tempo em que eles também trabalhavam no episódio final da série, a realização é nada menos que extraordinária.
Ainda que tenha seus defeitos, Generations cumpriu com louvor a missão de abrir caminho para que o elenco liderado por Patrick Stewart pudesse brilhar por conta própria nas telonas, o que não tardaria a acontecer.
Avaliação
Citações
“Who am I to argue with the captain of the Enterprise?”
(Quem sou eu para discutir com o capitão da Enterprise?)
James T. Kirk
“It was… fun… Oh, my.”
(Foi… divertido… Oh, meu Deus.)
James T. Kirk, últimas palavras
“Someone once told me that time was a predator that stalked us all our lives, but I’d rather believe that time is a companion who goes with us on the journey and reminds us to cherish every moment… because they’ll never come again.”
(Alguém uma vez me disse que o tempo era um predador que nos perseguia a vida toda, mas prefiro acreditar que o tempo é um companheiro que vai com a gente na jornada e nos lembra de cultivar cada momento… porque eles nunca voltarão.)
Jean-Luc Picard
Trivia
- Rick Berman, produtor executivo de A Nova Geração, foi procurado pelos executivos da Paramount, primeiro Brandon Tartikoff, depois sua sucessora Sherry Lansing, em meados de 1992 para discutir o que seria o sétimo filme de Star Trek no cinema. O estúdio queria que o elenco liderado por Patrick Stewart assumisse o protagonismo, mas Berman achava importante fazer uma “passagem de bastão” em tela.
- Em fevereiro de 1993, Berman começou o desenvolvimento paralelo de duas histórias, uma com a dupla Ronald D. Moore e Brannon Braga, e outra com o escritor Maurice Hurley. Michael Piller também foi convidado a participar, mas recusou, por não querer “competir” com os colegas.
- A premissa de Hurley trazia o capitão Picard recriando James T. Kirk no holodeck para ajudá-lo a resolver um dilema com uma espécie interdimensional causando caos no universo. Já Moore e Braga pretendiam trazer Kirk em carne e osso, assim como o elenco original. Esse foi o caminho escolhido.
- A primeira estratégia foi tentar fazer com que as duas tripulações de algum modo se enfrentassem, mas a dupla não conseguiu bolar um jeito que não fizesse uma delas agir com vilania. À procura de um grande evento para o filme, na falta disso, os dois acabaram com a ideia de matar Kirk.
- Com a aprovação preliminar do estúdio, Berman passou a desenvolver os detalhes da trama, com sugestões de William Shatner. O vilão do filme de início se chamaria Moresh, mas o nome foi trocado para evitar confusão com o infame David Koresh, líder de uma seita. Virou, então, Soran.
- A primeira versão do roteiro foi concluída em 1º de junho de 1993, durante o hiato entre a sexta e a sétima temporadas de A Nova Geração. Até 1º de outubro, o texto continha participações para Kirk, Spock, McCoy, Scott, Uhura, Sulu e Chekov.
- As versões iniciais continham mais cenas de ação, mostrando o ataque romulano ao Observatório Amargosa, e com uma perseguição das irmãs Duras e sua tripulação (que teriam sobrevivido à destruição da ave de rapina) aos sobreviventes da queda da Enterprise-D nas florestas de Veridian III.
- Aceitando que não havia espaço para atender todo o elenco da Série Clássica, a versão do roteiro de 28 de janeiro de 1994 (a quarta), só tinha Kirk, Spock e McCoy. Shatner concordou em participar do filme, contanto que tivesse aprovação do roteiro, mas Leonard Nimoy e DeForest Kelley não viam com bons olhos suas participações diminutas e declinaram. Scott e Chekov, interpretados por James Doohan e Walter Koenig, os substituíram. (Não por acaso Scotty se sai com uma “teoria” e Chekov organiza o atendimento médico dos refugiados…)
- Leonard Nimoy chegou a receber uma proposta para ser o diretor do filme. Mas, quando ele quis mudanças no roteiro, Rick Berman informou que não seria possível, e Nimoy desistiu de participar.
- As últimas versões do roteiro do filme foram escritas por Moore e Braga simultaneamente ao episódio final de A Nova Geração, “All Good Things…”. Os dois enfim acharam que o resultado final do segmento televisivo foi superior ao do cinematográfico.
- Rick Berman teve de brigar pelo orçamento do filme, mas o estúdio forçou um limite de US$ 35 milhões. Com isso, ideias de filmar no Havaí e em Idaho foram descartadas, em favor de locações mais próximas ao estúdio, em Hollywood, Marina del Rey, Pasadena, Lone Pine e no Parque Estadual do Vale do Fogo, perto de Las Vegas.
- Com a recusa de Nimoy, o diretor britânico David Carson foi contratado, após bons serviços prestados em A Nova Geração e Deep Space Nine. Foi sua estreia no cinema.
- O designer de produção Herman Zimmerman coordenou modificações nos cenários da Enterprise-D para torná-los mais interessantes na tela grande. Papel importante também teve o diretor de fotografia John Alonzo. Veterano de filmes como Chinatown e Scarface, ele ajudou a criar um ambiente muito mais cinemático nos cenários originalmente televisivos.
- A maior inclusão à Enterprise-D foi a sala de cartografia estelar, um cenário relativamente simples, mas imponente, de dois andares, que combinava um fundo real e incrementos por meio de efeitos visuais.
- A ponte da Enterprise-B era uma redecoração da ponte da Enterprise-A construída para Jornada nas Estrelas VI: A Terra Desconhecida. A sala do defletor da Enterprise-B, por sua vez, era nova e o objetivo era fazê-la mais grandiosa, mas acabou limitada pelo orçamento do filme.
- As maiores mudanças da série para o filme vieram na ponte da Enterprise-D, que ganhou estações e monitores adicionais, uma elevação das cadeiras centrais e um assento para Worf, na estação tática – nos episódios, ele ficava sempre em pé. Os cenários foram parcialmente destruídos para a filmagem do fim do filme, e depois totalmente desmontados e descartados para dar lugar aos novos cenários de Voyager, então em pré-produção. Ao trazer de volta a Enterprise-D na terceira temporada de Picard, décadas depois, o designer de produção Dave Blass teve de reconstruir a ponte do zero.
- A contratação de Malcolm McDowell como o vilão Soran veio tardiamente, e o ator estava satisfeito com a ideia de que seria o responsável pela morte de Kirk. McDowell é tio de Alexander Siddig, que faz Julian Bashir em Deep Space Nine.
- Tim Russ aparece como um tripulante da Enterprise-B, antes de assumir seu papel mais notório, como Tuvok, em Voyager.
- Whoopi Goldberg tem um papel proeminente no filme, como Guinan. A atriz voltaria a participar de um filme com o elenco de A Nova Geração, Jornada nas Estrelas: Nêmesis, mas só com uma ponta.
- Rick Berman queria novos uniformes para a tripulação no filme, tarefa que ficou a cargo do designer de figurino Robert Blackman. Os novos modelos chegaram a ser aprovados e costurados, mas testes em filmagens acabaram sendo decepcionantes. Berman então decidiu ir com uma mistura dos uniformes usados em A Nova Geração com os modelos que estrearam com Deep Space Nine. Curiosamente, a mudança veio depois que a empresa de brinquedos Playmates já havia iniciado a fabricação dos action figures do filme – que acabaram sendo vendidos com os uniformes jamais usados em tela.
- Os efeitos visuais ficaram mais uma vez a cargo da empresa Industrial Light & Magic, que entregou um trabalho magnífico ao retratar o mergulho da Enterprise-D em Veridian III. O modelo físico da Enterprise-B, por sua vez, era uma modificação do que já existia para a Excelsior. E, no melhor estilo econômico de Star Trek, a explosão da ave de rapina klingon é uma tomada reaproveitada de Jornada nas Estrelas VI: A Terra Desconhecida.
- As filmagens começaram em 28 de março de 1994, com cenas do trio clássico na Enterprise-B e com o skydiving orbital de Kirk – sequência que acabou cortada do longa. Com um modesto cronograma de 50 dias, as filmagens da primeira unidade acabaram em 9 de junho daquele ano.
- A casa de Kirk era uma residência real nas montanhas de Lone Pine, adaptada com a construção de uma nova cozinha e escada para o local.
- A versão original da morte de Kirk envolvia o personagem levando um tiro pelas costas, depois de fazer um comentário jocoso sobre como as coisas eram fáceis no século 24. A reação de uma audiência teste foi péssima, o que fez o estúdio autorizar que a sequência fosse reescrita e refilmada, a um custo adicional de US$ 5 milhões. Uma equipe voltou ao Vale do Fogo em setembro de 1994, sob temperaturas escaldantes, para regravar a morte de Kirk, desta vez a que ficou no filme, com a queda da ponte. Na adaptação em quadrinhos, a versão original foi preservada.
- Outras refilmagens foram feitas para a sequência do Natal da família Picard, ambientada no Nexus.
- A trilha sonora ficou a cargo de Dennis McCarthy, músico com importantes colaborações para A Nova Geração. Você pode ler mais sobre ela clicando aqui.
- Jornada nas Estrelas: Generations foi o primeiro filme de cinema a ter um site próprio para promovê-lo na internet, inaugurado em 28 de outubro de 1994.
Ficha Técnica
História de Rick Berman & Ronald D. Moore & Brannon Braga
Roteiro de Ronald D. Moore & Brannon Braga
Dirigido por David Carson
Produzido por Rick Berman
Música de Dennis McCarthy
Estreia em 18 de novembro de 1994 (EUA), 7 de abril de 1995 (Brasil)
Título em inglês: Star Trek: Generations
Elenco
Patrick Stewart como Jean-Luc Picard
Jonathan Frakes como William T. Riker
Brent Spiner como Data
LeVar Burton como Geordi La Forge
Michael Dorn como Worf
Gates McFadden como Beverly Crusher
Marina Sirtis como Deanna Troi
Malcolm McDowell como Tolian Soran
James Doohan como Montgomery Scott
Walter Koenig como Pavel Chekov
William Shatner como James T. Kirk
Whoopi Goldberg como Guinan (não creditada)
Alan Ruck como John Harriman
Jacqueline Kim como Demora Sulu
Jenette Goldstein como oficial de ciências
Thomas Kopache como oficial de comunicações
Glenn Morshower como navegador
Tim Russ como tenente
Tommy Hinkley, John Putch e Christine Jansen como jornalistas
Michael Mack como Hayes
Dendrie Taylor como Farrell
Patti Yasutake como Alyssa Ogawa
Granville Ames como chefe de transporte
Henry Marshall como oficial de segurança
Brittany Parkyn como garota com ursinho
Majel Barrett como voz do computador
Barbara March como Lursa
Gwynyth Walsh como B’Etor
Rif Hutton como guarda klingon
Brian Thompson como oficial do leme klingon
Marcy Goldman, Jim Krestalude, Judy Levitt, Kristopher Logan e Gwen Van Dam como sobreviventes
Kim Braden como esposa de Picard
Christopher James Miller como sobrinho de Picard
Matthew Collins, Mimi Collins, Thomas Alexander Dekker, Madison Eginton e Olivia Hack como filhos de Picard
TB ao Vivo
Podcast
Enquete
Edição de Maria Lucia Rácz
Revisão de Rafaela Sieves
Filme anterior | Próximo filme
Descubra mais sobre Trek Brasilis
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.